
Foto de Carol Garcia
Ontem fui rever Canteiros de Rosa (não resisti e fiquei pras duas sessões!!), peça teatral do Grupo Vilavox, com texto de Gordo Neto e direção de Jacyan Castilho. Baseada em três contos do livro Primeiras Estórias (Sorôco, sua mãe, sua filha; Darandina e A menina de lá), de Guimarães Rosa, a peça é um exemplo bem preciso, para mim, da sofisticação que a linguagem teatral pode apresentar em sua busca pelo diálogo com o imaginário humano. Canteiros deixa muito explicitamente claro esse deslavado, escancarado, desavergonhado e mágico acordo tácito entre espectador e palco… Outros exemplos que me vêm e que me trazem essa verdade… um, é o trabalho de manipulação de mãos, com bonecos, do grupo paranaense Tato Criação Cênica com as peças E se (salve Gordo que lá estava, no Gamboa Nova, num dia do FIAC) e Tropeço. Os manipuladores estão atrás dos bonecos, vestidos de preto, mas estão presentes, no entanto, desaparecem, ou melhor, quando assim querem… Outro é a leitura de Marcio Meirelles em Sonhos de uma noite de verão, de Shakespeare, e os atores sentadinhos ao lado do palco esperando, sob os olhos da platéia hipnotizada, sua vez de entrar em cena… Assim como Canteiros se constrói (literalmente) sobre andaimes, sobre sons que substituem a realidade dos sons (no caso do trem, no caso dos mugidos, no canto que ecoa de uma garganta imóvel e louca (?)…), sobre uma trilha sonora que, assim como as palavras do texto, sugerem frases, continuidades sonoras a serem complementadas pelo espectador com sua voz da imaginação… Engraçado, fala-se em interatividade nas novas mídias e percebo Canteiros construído sobre uma tradição e tão interativo com o espectador… Seus três narradores iniciais (que vêm ‘oferecer’ cada história numa bandeja de ouro) nos propõem uma ‘pisada no freio da vida’, falam do tempo que assola, que invade o sonho da vida como um trator, e tb falam dos caminhos pretendidos, mas nem sempre possíveis… A partir daí, as histórias descortinam-se alternando narrações e diálogos… como se nos dissessem… “isso é texto dramático, aquele outro, no livro, é narrativo, mas fazemos a mesma coisa, contar pra vc uma história”… Interativo porque ao pedir um freio na loucura do tempo, ainda trazem as palavras numa medida sóbria e confortável para que “meu acervo pessoal possa se expressar”… No documentário brasileiro Janela da Alma, o diretor de cinema Win Wenders traz essa mensagem… a necessidade do silêncio para fluir nossa porção autoral no mundo, ou ainda, Jean Claude Carrière apontando silêncios nas linguagens, em A linguagem secreta do cinema… Eis a interatividade (eu me respondo internamente à peça e devolvo ‘minha peça’ em energia criativa para os atores), daí… eis o poder de fogo do teatro possibilitando imersão… Andaime vira trem, vira árvore, os tantos planos da cena, os espaços do palco principal do TVV viram Minas Gerais montanhosa, BH… O ator vira galinha e esperneia a cada pena arrancada… e os outros atores são bois tangidos pelo pastor… E tudo está ali arrumado… Interativo, imersivo, intenso… propondo multilinhas de entendimento… De início, em Sorôco, a história vem pelas tantas vozes da cidade que nos preparam para o cortejo rápido, das duas loucas, ao fim… E, ainda, a memória vem pelos corredores do Vila, perfazendo um outro plano físico em que a imaginação se exponha… Em Darandina a loucura vem de cima da árvore/andaime e vai contaminando a população que corre… sempre na dúvida… Linda a câmera lenta num dado momento, freando o frenético… Em A menina de lá, a afetividade do encontro de Nhinhinha com o tio, o cotidiano vem repetido em dois momentos… uma seqüência de dois dias de visita em poucos minutos cola na minha imaginação como tatuagem… Enfim, em constante e despojada brincadeira com as linguagens disponíveis no mundo, e com o bom senso que coordena uma dinâmica impecável, Canteiros tb me diz que no diálogo entre linguagens não existe proibição… Se Gordo Neto acrescenta texto ao texto, também foi contaminado pelo espaço interativo que Rosa lhe deixou… Vestiu-se de co-autor como sempre cabe ao leitor atento… Assim, Gordo sabe que a população da pequena cidade sabe dos fatos que cercam a estranha família de loucos (Sorôco fica louco?), assim como encontra para a filha de Sorôco, numa aventura amorosa, uma razão para enlouquecer… Depois, Gordo bota a oralidade em versos, em Darandina, como um reflexo da própria tessitura e ritmo da narrativa original sob a forma de conto. Depois, ainda, Gordo prevê a menina milagreira atraindo o povo que lhe vem na carência de uma ajuda… O texto que vem sobre o texto, vem na medida do próprio texto que Gordo retira cuidadosamente da narrativa original… Pois… fica parecendo que tudo saiu dos contos de Rosa… Tamanha reverência ao universo do escritor entra em acordo com tamanha reverência a esse espaço necessário para o leitor criar junto…

Foto de Carol Garcia
Se a linguagem de Rosa não está presente o tempo todo na peça, como poderia ser o esperado, está lá presente a ‘espacialidade reserva’ que o texto original e as palavras propiciam – um esgarçamento da trama e da linguagem metafórica abrindo espaços – e que inclui, a meu ver, o trabalho/fruto de uma capacidade imaginativa do espectador que assiste a uma peça teatral e que pode, ou não, ser convocado pelo texto e direção, a um novo momento criativo e único em sua vida … Como se fosse trocada a ‘fidelidade ao texto original’ pela co-criação, ou ainda, trocada pela fidelidade ao texto criado por cada um no seu tempo real de contato com a história que acontece ali… O que sempre me reafirma que, em arte, a ‘deformação’ é sempre necessária. De ‘desgosto’ por Canteiros, Jacyan, me fica o silêncio imperdoável da mídia cultural baiana (promoção, cuidado e zêlo cultural só são cobrados do Estado?) e ainda não ver a peça viajando por todo o Brasil, interiores e capitais, e exterior, claro, pois que o mundo precisa desses Canteiros de Rosa… Finalizo destacando a síntese do amarelo da lona do chão e dos andaimes… uma sutileza fina para dar conta do cenário sertanejo e, ao mesmo tempo, de uma proposta que não se faz sozinha, mas em construção: obra, labor de quem faz, no palco e na platéia.

Foto de Carol Garcia
Na próxima terça, dia 10/03, inicio com meus alunos de Letras, da UNIME, o trabalho Literatura e Linguagens e Canteiros abre as portas para essa preciosa discussão. Começo com o pé direitíssimo esse semestre acadêmico.
Sérgio Cerviño Rivero